Entrevista a
José Eduardo Moniz Director-Geral da TVI
"Ninguém nasce condenado a ser pequeno"
Correio da Manhã Escreveu:
Nove anos depois de assumir o cargo de director-geral da TVI, José Eduardo Moniz confessa que o balanço é muito positivo e que a evolução da estação de Queluz de Baixo se assemelha a uma aventura muito grande. Critica o novo Estatuto do Jornalista e defende que a liberdade de expressão é a base da democracia.
Porque está a fazer um investimento no cinema português?
Porque nós somos a estação de televisão que mais aposta em ficção em Portugal, que mais tem feito pelos actores, pelos autores e pelos técnicos portugueses que trabalham nesta área. E porque é a sequência lógica do trabalho que tem vindo a ser efectuado, de afirmação daquilo que é a criatividade portuguesa e capacidade de produção portuguesa na área da ficção. Portanto, o cinema, para nós, funciona como a cereja em cima do bolo.
Quando estreará o ‘Grande Programa de Informação’?
Estamos a trabalhar na reorganização da nossa grelha, que é uma grelha dinâmica. É possível que tenhamos um programa até ao final deste ano. Não sei quando, mas é possível.
Quando é que a NBP começa a exportar conteúdos (ficção) para Espanha?
A NBP tem condições para produzir para o mercado português, para o mercado espanhol e para outros. É uma grande produtora europeia, hoje em dia. Está entre as dez maiores produtoras europeias. É uma das maiores produtoras europeias de ficção e, portanto, é natural, sendo Portugal um mercado pequeno, que o crescimento passe por fazer produções para o exterior.
Tem contrato de exclusividade com vários actores. Recentemente foi celebrado um com Paulo Pires. Esse tipo de contrato compensa?
Temos contratos com diversas pessoas, que achamos que contribuem para consolidar o perfil que o canal quer ter. Na medida em que contribuem para a definição do carácter e perfil da estação, esses contratos são úteis.
O jornalista Júlio Magalhães foi um dos apresentadores das ‘7 Maravilhas do Mundo’. A TVI parece sofrer de uma falta de apresentadores na área de entretenimento, como são, por exemplo, Bárbara Guimarães e Catarina Furtado. É uma opção sua ou é mesmo uma ‘falha’?
Eu acho que não há muitos apresentadores de entretenimento em Portugal. Quanto ao Júlio Magalhães, que apresentou, e muito bem, as ‘7 Maravilhas’, esta emissão não era uma emissão de entretenimento, era uma emissão, também, informativa. Foi por isso que me atrevi a colocar lá o Júlio Magalhães. Primeiro, a convidá-lo e, depois, a anuir com a sua colocação como apresentador da gala.
Estão previstas sinergias entre a TVI e o canal espanhol Cuatro, também da Prisa?
Eu acho que num grupo com a dimensão da Prisa é natural que se procure ter à partida as sinergias possíveis entre as várias empresas do grupo. A Cuatro, até agora, tem feito o seu caminho. Nós temos feito o nosso, mas é natural que procurem tirar partido das experiências de um e de outro. É expectável e lógico que isso venha a acontecer.
Que balanço faz dos quase 15 anos da TVI?
Não posso falar pelos 15 anos. Só posso falar por nove. Mas, por aquilo que as pessoas que estavam cá me contam dos primeiros seis anos, acho que foi um processo que se assemelha a uma aventura muito grande, com altos e baixos significativos. É uma estação de televisão que provou que ninguém nasce condenado a ser pequeno. Ficou constituído um fenómeno, não só no mercado português, mas no mercado internacional e que é hoje uma estação de televisão reconhecida internacionalmente por aquilo que faz, nomeadamente na sua ficção e na sua agilidade em enfrentar as situações de mercado que se põem, tanto no entretenimento como na informação.
Qual é a estratégia da TVI para a Televisão Digital Terrestre (TDT)?
Estamos atentos ao fenómeno. Estamos a estudar o tipo de produtos que podemos ter para os vários tipos de oferta que vierem a surgir e, no âmbito da Media Capital, naturalmente, a empresa prepara-se para enfrentar os concursos que vão surgir.
Poderão associar-se ao Grupo Impresa, presidido por Pinto Balsemão?
Essas converas são entre Media Capital e Impresa e não entre TVI e SIC. Mas obviamente que as pessoas inteligentes têm que saber conversar.
As estações concorrentes criticam-no por aparecer em eventos, como as ‘7 Maravilhas do Mundo’. Como olha para essas críticas?
É-me completamente indiferente.
O director deve aparecer nas emissões do próprio canal?
Eu acho que quem está nos sítios não deve ter vergonha de estar. Se subscreve as apostas que faz, não deve esconder-se atrás do pano como quem tem medo que as coisas não corram bem. Eu acho que as pessoas são responsáveis pelos bons e maus momentos, mesmo antes de saberem se eles são bons ou maus.
No seu caso têm sido bons...
Felizmente, as coisas têm corrido bem, mas porque trabalhamos muito e, precisamente, porque temos essa atitude: damos a cara e não temos medo.
Quando é que Manuela Moura Guedes regressa ao ecrã?
É um assunto que está a ser tratado.
AFINAL, O QUE FAZ O EX-MINISTRO NA MEDIA CAPITAL?
"PINA MOURA É UM ADMINISTRADOR NÃO EXECUTIVO, PONTO FINAL"
O que é que mudou na relação da Direcção da TVI com a Administração desde a entrada da Prisa no grupo Media Capital?
As relações que existem são normalíssimas. Todos trabalhamos com um objectivo, que é fazer com que esta empresa seja uma grande estação de televisão, se afirme no mercado como a estação líder, que tem sido.
Aquando da nomeação de Pina Moura para presidente não executivo da Prisa, muito se escreveu e falou. Afinal, qual é o papel do ex-ministro?
É um administrador não executivo, ponto final.
O ‘El Pais’ funciona como um centro de estágios da escola de jornalismo da Prisa. Se o modelo for implantado em Portugal, a TVI será um centro de estágios?
A TVI hoje em dia é um centro de estágios. Temos cá muitos finalistas de cursos de Comunicação Social a frequentarem a nossa redacção. Estão cá durante vários meses e revesam-se. Estão cá três meses uns, depois vêm outros mais três meses. Portanto, nós temos essa prática aqui permanentemente.
OS DIREITOS DOS JORNALISTAS
'UMA DAS CONDIÇÕES DA DEMOCRACIA É HAVER LIBERDADE'
Que críticas faz ao novo Estatuto do Jornalista?
As pessoas têm que perceber que uma das grandes condições da democracia é haver liberdade e é haver jornalismo em liberdade. Sempre que se procura restringir os direitos dos jornalistas é porque se procura esconder alguma coisa. Foi nessa perspectiva que assinei o Movimento [Informação é Liberdade] e é nessa perspectiva que vale a pena lutar por aquilo que os jornalistas devem acreditar. Se nós queremos ter uma sociedade democrática e evoluída, é óbvio que os diversos poderes têm que compreender isso. E têm que perceber que governar em democracia é muito difícil, mas é sempre compensador. Temos experiências na nossa democracia, segundo as quais quem procurou governar controlando a comunicação social acabou por se dar mal.
EM 2001 GANHA NO 'PRIME TIME' E EM 2005 ASSUME A LIDERANÇA
José Eduardo Moniz chegou à TVI em 1998, pela mão de Belmiro de Azevedo, que, na altura, detinha a maior parte do capital da empresa. Moniz foi a segunda aposta do patrão da Sonae, que antes convidara o jornalista Carlos Magno. A escolha não poderia ter sido melhor: algum tempo depois da sua entrada, a estação chegava ao segundo lugar nas audiências, alcançando a primeira posição no horário nobre três anos depois. A liderança, que chegou em 2005, mantém-se até aos dias de hoje. O ‘Big Boss’, como é chamado na TVI, é um homem de vitórias. A última alcançou-a, recentemente, na gala ‘As 7 Maravilhas do Mundo’. A Quatro bateu, então, o seu recorde, chegando aos 64,4% de share.
'BIG BROTHER'DÁ IMPULSO PARA GRANDE SALTO
‘Big Brother’, o primeiro reality show exibido em Portugal (2000), impulsionou as audiências da TVI para a liderança do horário nobre. A decisão de adoptar o formato foi tomada por Moniz, depois da recusa da SIC.
JORNALISTA DO 'DIÁRIO POPULAR' ANTES DE ENTRAR NA RTP
José Eduardo Moniz nasceu em Ponta Delgada há 55 anos. Veio para Lisboa estudar Românicas, iniciando, pouco depois a carreira de jornalista no desaparecido jornal ‘Diário Popular’. Passou pela Renascença, RTP, onde foi director-coordenador de Informação e Programas, e ‘TV Guia’. Criou uma produtora, a MMM, que vendeu em 1998, quando entrou na TVI, como director-geral. Moniz é conhecido por ter feito renascer a segunda televisão privada, que alcançou a liderança das audiências em 2005. É casado com Manuela Moura Guedes, com quem tem dois filhos. Frequentemente visita a mãe, que vive nos EUA.
INFORMAÇÃO
Na cobertura dos resultados das legislativas de Fevereiro de 2005, Moniz esteve ao lado da mulher, Manuela Moura Guedes. Nunca escondeu o desejo de voltar à informação.
TVI SHARE
1993 - 6,7 %
1994 - 14,7%
1995 - 13,8%
1996 - 12,3%
1997 - 12,1%
1998 - 13,1%
1999 - 16,4%
2000 - 20,8%
2001 - 31,9%
2002 - 31,4%
2003 - 28,5%
2004 - 28,9 %
2005 - 30%
2006 - 30%